sexta-feira, 4 de abril de 2025
Search

Como o aumento de juros no Japão afetou as operações de carry trade e derrubou as bolsas globais?

Como o aumento de juros no Japão afetou as operações de carry trade e derrubou as bolsas globais?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Uma das últimas nações a operar com juros nominais negativos no mundo, o Japão elevou sua taxa de juros de 0,1% para 0,25% ao ano. Quem está acostumado com o Brasil (a Selic atual está em 10,50%) pode pensar que a mudança é pequena. Mas essa medida foi capaz de movimentar os mercados financeiros no início desta semana. Na segunda-feira (05/08), o principal índice da Bolsa de Tóquio, o Nikkei, registrou um tombo de 12,4%. Outras bolsas pelo mundo também foram afetadas. Isso porque a elevação dos juros no Japão levou a um desmonte das operações de carry trade. Para o Brasil, o impacto pode ser no aumenta das chances de fuga de dólares em investimentos, apontam especialistas.

A inflação no Japão avançou de 2,5% em abril para 2,8% em maio, acima da meta de 2% do Banco Central do Japão (BoJ). Em março, a autoridade monetária já havia tirado a taxa de juros do negativo (-0,1%) para 0,1%, uma mudança que não acontecia há oito anos. No final de julho, o cenário econômico não apresentou mudanças, o que levou o BoJ a seguir no combate à inflação.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou, em relatório publicado em fevereiro, que a posição cautelosa do BoJ levava em conta o histórico de deflação pelo qual o país passou. O documento apontava também para sinais contraditórios da economia, como os riscos para a inflação com o fortalecimento dos salários nominais de um lado e a retração do consumo no mercado interno do outro. 

Após anos com crescimento fraco, o Japão perdeu a 3ª colocação para a Alemanha no ranking de maior economia do mundo, segundo o FMI. Com isso, os alemães despontam com um PIB nominal de US$ 4,43 trilhões, enquanto o Japão registrou US$ 4,23 trilhões.

Juros mais altos no Japão, e agora?

No conceito geral econômico, o aumento de juros pode levar a uma valorização da moeda local. A elevação da taxa é também uma ferramenta da política monetária para combater a escalada da inflação, porque dificulta o acesso a crédito e desestimula os investimentos.

“O que ocorre é uma valorização da moeda local, assim tem um estímulo às importações e um desestímulo às exportações”, explica Marcos Barbieri Ferreira da Faculdade de Ciências Aplicadas na Universidade Estadual de Campinas (FCA-Unicamp). “Então, uma ampliação da taxa de juros tem um impacto contracionista, de reduzir o crescimento da economia, seja pelo consumo das famílias, investimento das empresas, gasto do governo ou exportações. Tudo isso se reduz com o aumento da taxa de juros.”

No caso do Japão, Barbieri destaca que a nação foi uma das últimas a elevar a taxa de juros no pós-pandemia. “O Japão é um caso excepcional principalmente no pós-pandemia, quando ajustes na cadeia produtiva levaram a um aumento inflacionário. Diversos países elevaram suas taxas de juros, como EUA e a Europa, mas o único que continuava em juros negativos era o Japão. Qual o objetivo? Se um aumento da taxa leva a uma redução e contração na economia, uma taxa negativa visava estimular o crescimento da economia.”

Ir na contramão do mundo não garantiu o crescimento econômico que o Japão esperava, o que despontou em uma recessão, mas com algumas diferenças, de acordo com o professor de economia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Fernando Henrique Dias. “A recessão japonesa é completamente diferente de uma num país periférico. A gente acha que o país está indo à falência, mas não é nesse sentido. Significa que só deixou de crescer como gostaria, então, o banco central tem que mexer na taxa de juros e começar a valorizar a moeda para protegê-la.”

E o carry trade nessa história?

Em razão da taxa de juros negativa desde 2016, os investidores internacionais usavam a moeda japonesa, o iene, para montar uma estratégia chamada de carry trade. O objetivo dessa operação é operar vendido em uma moeda com taxas de juros baixíssimas (que era o caso do Japão até então) e aplicar em outro país onde as taxas fossem mais elevadas (isso inclui países emergentes, como o Brasil, que mantém uma taxa básica de juros em 10,50% ao ano).

Com a mudança nos juros japoneses, as operações de carry trade foram liquidadas por muitos gestores e investidores institucionais. Para os dois professores, o impacto disso no Brasil deve ser sentido na fuga de dólares em investimentos, mas sem efeito sobre a economia real brasileira.

“Em março a taxa negativa foi interrompida e agora houve essa sinalização de aumento. Isso leva as operações de carry trade a terem prejuízos. Diversos operadores carregados de dívidas agora procuram liquidá-las e encerrar suas operações. Isso faz com que recursos aplicados nos países emergentes sejam retirados. É um impacto marginal, mesmo na economia brasileira. Isso leva à retirada de dólares, com impacto no câmbio e também pela própria especulação”, observa Barbieri.

O iene deve se valorizar, segundo Dias, e a saída de dólares do Brasil tende a desvalorizar o real. “Eles vão deixar de alocar nos países periféricos para pagar o que estão devendo. Eles devem pagar essa dívida e deixar de pegar esse dinheiro no país emergente. O dólar vai sair do Brasil, isso em questão de investimentos. O iene vai aumentar e o dólar desses investidores sai do Brasil. Vai ser uma pressão muito grande em cima da nossa moeda.”

Para conhecer mais sobre finanças pessoais e investimentos, confira os conteúdos gratuitos na Plataforma de Cursos da B3.



Fonte: B3 – Bora Investir

Gostou? Compartilhe com um Amigo!

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

Siga nossas Redes Sociais

Google_News_icon
Google News

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Quem viu esse, também viu estes

Receita paga nesta quinta lote residual de restituição do IR

Receita paga nesta quinta lote residual de restituição do IR

Pressionado por IPCA, Ibovespa cai 1,33%; em alta, dólar fecha a R$ 4,98

Pressionado por IPCA, Ibovespa cai 1,33%; em alta, dólar fecha a R$ 4,98

Rio aumenta ICMS para 20% a partir de 2024; indústrias criticam

Rio aumenta ICMS para 20% a partir de 2024; indústrias criticam

Reajustes salariais em julho ficaram acima da inflação, mostra Fipe

Reajustes salariais em julho ficaram acima da inflação, mostra Fipe

Relatório do Desenrola limita juros do rotativo a 100% da dívida

Relatório do Desenrola limita juros do rotativo a 100% da dívida

Varejistas antecipam taxação de compras de até US$ 50 para sábado

Varejistas antecipam taxação de compras de até US$ 50 para sábado

Mercado eleva para 2,46% projeção de expansão da economia em 2024

Mercado eleva para 2,46% projeção de expansão da economia em 2024

Conheça as perspectivas para os investimentos no setor de tecnologia e veja como investir

Conheça as perspectivas para os investimentos no setor de tecnologia e veja como investir

Segunda parcela do décimo terceiro deve injetar R$ 106 bi na economia

Segunda parcela do décimo terceiro deve injetar R$ 106 bi na economia

Senado aprova isenção de IPVA para carros com mais de 20 anos

Senado aprova isenção de IPVA para carros com mais de 20 anos

Doações do IR para projetos sociais esbarram no desconhecimento

Doações do IR para projetos sociais esbarram no desconhecimento

exterior pode animar mercado local, mas Petrobras e IPCA são riscos

exterior pode animar mercado local, mas Petrobras e IPCA são riscos

PIB sobe 0,9% no 3º trimestre, puxado por serviços e indústria

PIB sobe 0,9% no 3º trimestre, puxado por serviços e indústria

foco em dados do Banco Central e acomodação em torno da ata da Selic

foco em dados do Banco Central e acomodação em torno da ata da Selic

PIB dos EUA cresce 1,6% no 1º trimestre, abaixo do piso das expectativas

PIB dos EUA cresce 1,6% no 1º trimestre, abaixo do piso das expectativas

Mercado financeiro prevê crescimento do PIB acima de 2% neste ano

Mercado financeiro prevê crescimento do PIB acima de 2% neste ano